Idiossincrasias
 

 INDIFERENÇA

 Há exatos 12 dias o menino João Hélio foi arrastado do lado de fora do carro de sua    família e morreu. Dizem que a Veja publicou os detalhes sórdidos da morte do menino. Esse tipo de narrativa não condiz com a idéia que eu faço da função da mídia, e por isso eu não li.

 Foi uma tragédia. Não posso mensurar o sofrimento dos pais, da irmã, de toda a família deste menino. Não desejo esse tipo de sofrimento a ninguém.

Faz apenas 12 dias que João morreu. A família ainda nem conseguiu se refazer do choque e uma nova lei penal já foi aprovada. A tal lei aumenta a pena para quem se utilizar de menores para o cometimento de crimes e o tempo mínimo de cumprimento da pena para progressão de regime no caso de crimes hediondos.

 

Os jornais têm noticiado que a imensa maioria dos juristas é contra a alteração legislativa em momentos de comoção social. Fernando Gabeira argumentou que estamos em constante comoção social e então nunca aprovaríamos lei alguma.

 

Lamento constatar que não é verdade.

 

De fato, deveríamos estar em permanente comoção pública, mas não estamos. Acredito, ao contrário, que vivemos na mais completa indiferença.

 

Indiferença à realidade feia e triste que existe a nossa volta. Realidade essa onde crianças das favelas do Rio – tão crianças quanto João? - têm tanto medo dos tiros dos traficantes quanto do caveirão. Realidade onde crianças e adolescentes crescem em famílias desestruturadas, em meio ao tiroteio constante entre traficantes e entre traficantes e polícia, vendo seus pais e irmãos serem mortos na porta de suas casas. Realidade onde a polícia quando sobe o morro sobe derrubando portas, onde o limite entre o público e o privado quase não existe, onde uma família de 10 pessoas pode morar em um único cômodo. Realidade onde mocinhos e bandidos são muito difíceis de se identificar.

 

Enquanto isso, outra parcela da população desfila em seus carros importados – alguns blindados por reles R$ 80 mil – e tenta se proteger como pode da “criminalidade”.

 

E a criminalidade continua sem cara, sem nome.

(continua)

 



Escrito por Pri Guerra às 13h59
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O menino João foi morto em uma tragédia. Tragédia da qual faz parte outros meninos (um de 17 e outro de 18 anos). Outros meninos pelos quais não nos interessamos. Não sabemos seus nomes, suas histórias.

 

Outros meninos que também têm família. Penso também no sofrimento dos pais destes rapazes, que participaram do assalto que levou à morte de João. Um dos pais inclusive ajudou a prender o próprio filho. Talvez o sofrimento seja ainda maior. Espero, sinceramente, nunca saber a resposta.

 

Daqui a alguns dias outra notícia ocupará as manchetes. A família de João terá que chorar sua perda sozinha. Teremos uma nova lei. Não teremos nenhuma mudança.

 

Não teremos parado pra pensar que somos, todos nós, responsáveis por essa “criminalidade”. Que escolhemos a sociedade em que vivemos. E que construímos, ano após ano, uma sociedade cada vez mais desigual, mais injusta e mais cruel.

 

Não nos preocupamos com as nossas crianças, porque não as consideramos nossas. Quando um João morre, nos chocamos. Somos chamados à realidade. Mas apenas nos preocupamos em como livrar a sociedade “boa” da sociedade “má”, como se existissem efetivamente duas sociedades.

                                       

Está na hora de olharmos realmente para a sociedade que criamos e pensarmos sobre a sociedade que queremos. Em dedicarmos alguns momentos dos nossos tão atarefados dias a refletirmos sobre a nossa responsabilidade na vida em sociedade. E no que podemos fazer para resolver efetivamente os nossos problemas sociais – ao invés de apenas criarmos leis penais. Uma pena mais grave nunca devolverá um filho à sua família. Mas políticas sociais efetivas podem impedir que muitos filhos sejam tirados de seus lares.



Escrito por Pri Guerra às 13h54
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