Idiossincrasias
 

                                 

 

Intolerância

 

Aconteceu na minha família. E foi essa semana. Um tio-avô, vítima de infarto, convalescia na UTI. Uma sobrinha sua acompanha os familiares no hospital. Lá, encontra um padre conhecido e ele gentilmente se oferece para conceder uma bênção a seu tio. Ela aceita. Pouco depois fica sabendo que o padre foi expulso da UTI por filha e netas do paciente. O motivo: nem elas, nem o paciente, professam a fé católica.

 

Religiosos são comuns em UTIs de hospitais e geralmente oferecem apoio e alento a pacientes e suas famílias.

 

Eis que no dia seguinte chega aos ouvidos da filha do paciente que um pastor havia abençoado seu pai. E lá foi ela tirar satisfações com ele. Chocado, o pastor questionou qual era a sua religião. Honestamente, não sei de quais religiões falamos – nem a do Pastor, nem a de minhas primas. Sei apenas que ambas são protestantes. O Pastor, então, disse a ela que tinha concedido uma benção a todos os pacientes da UTI e que tanto ele, quanto ela, eram cristãos, crendo nos mesmos princípios e no mesmo Deus. E que uma benção não faria mal a ninguém.

 

            A mesma intolerância religiosa que negou uma bênção e destratou religiosos em um hospital particular em Porto Alegre mata centenas de pessoas todos os dias ao redor do mundo.

 

            Uma ignorância que não deveria mais ser tolerada.



Escrito por Pri Guerra às 19h30
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O som do amor

 

 

Internet, avião, o homem na Lua e robôs criados por humanos em Marte, ar condicionado, o confortável sofá em que deitamos para assistir TV, a gramática que eu ignorei sobre a transitividade do verbo assistir, sorvete Häagen-Dasz, as crônicas de Veríssimo, novela das oito, Coca Cola, Disney World, música sertaneja, celular com câmera de 5 Megapixels, vizinho barulhento e tudo o mais de divertido e de bizarro e de moderno e de brega e de revolucionário só existe porque dormimos.

 

Até pode ser que seja nossa (dita) inteligência que nos diferencie dos outros animais. Mas se, ao contrário deles – e de nós – não precisássemos dormir, a vida inteligente não seria nem um pouco confortável.

 

Pensa bem: Alertas, podemos nos esconder de animais e de outros perigos que assombravam nossos parentes das cavernas. Mas e durante o sono? Absolutamente vulneráveis, nossos antepassados devem ter percebido que o melhor era viver em grupo, onde um poderia velar o sono do outro. E viver em cavernas, onde os perigos ficassem levemente afastados. Mas as cavernas eram meio apertadas, e bastante desconfortáveis, úmidas e frias. Além do que fechar a entrada com uma pedra gigante não era lá muito prático. Isso sem falar nos mosquitos!

 

Foi aí que nossos parentes distantes decidiram construir lugares mais confortáveis e seguros de se dormir. E alguns poucos milênios depois  dormimos em camas king size e confortáveis lençóis de algodão.

 

Ganhar um colo do namorado, passear de mãos dadas no parque, beijo de borboleta, cineminha e jantar a luz de velas, telefonemas que não acabam nunca, “eu te amo”, bolo de casamento e viagens de lua de mel e todos os demais passeios e prazeres românticos a dois só existem porque dormimos.

 

É o sono que nos convence da nossa fragilidade, da nossa dependência, das nossas vulnerabilidades. Roncamos, falamos, gememos, resmungamos. E percebemos que somos frágeis. Sonhamos. E percebemos que somos seres complexos e um tanto confusos e um bocado carentes.

 

E quando dividimos o sono dividimos a alma. Oferecemos ao outro nossa maior intimidade. Nos desnudamos. O sono é a nudez da alma. Sem ele, despiríamos apenas o corpo e nunca conheceríamos a verdadeira entrega.

 

Aceitamos que alguém conheça melhor que nós mesmos uma parte de nós. E dormimos tranqüilos, fazendo dessa tranqüilidade uma oferta.

 

O prazer do sono a dois é a grande prova e o grande reconhecimento da nossa condição de “gente”. Compartilhar a serenidade do sono é a melhor maneira de dizer “eu te amo” e o ronco é, enfim, o som do amor.

 

 

 



Escrito por Pri Guerra às 12h38
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