Idiossincrasias
 

                        

Bata e legging

 

Cheguei ao consultório nitidamente nervosa, mas fingindo não estar nem aí. Filha de uma nutricionista, neta de um nutrólogo, ao menos algumas vezes por ano ao longo dos meus 28 anos dou as caras no consultório pra ver se está tudo bem.

 

Dessa vez, no entanto, era diferente. Minhas calças jeans simplesmente passaram a se negar a fechar e confesso que encontrei conforto nessa moda de bata e legging.

 

Suando frio, em pleno calor do verão de Porto Alegre, entrei na sala, tirei a roupa, respirei fundo e subi na balança. Essa parte até foi fácil. Já tinha experimentado balanças de farmácia e não houve nenhuma surpresa. O pior ainda estava por vir: um aparelhinho que mais parece um instrumento de tortura e com o qual o médico é capaz de descobrir exatamente quantos milímetros de gordura há na nossa cintura.

 

Enquanto minha cintura, barriga, braço e costas eram beliscados, descobria horrorizada que todos os números anotados em minha ficha eram ao menos o dobro dos anteriores. E não pensem que o médico me poupou, não: anotava as informações e utilizava interjeições do tipo ah! e oh!. Nem o conhecidíssimo bah! Foi poupado, sinal de que a coisa estava realmente feia.

 

Findos os apertões, vesti correndo minha roupa, ansiosa por esconder todas aquelas ingratas gordurinhas no meu look preto total. Ingratas, sim. Ora, se eu satisfaço a gula de minhas células adiposas com delícias inimagináveis, nada mais justo que elas se esconderem na hora da consulta (e na hora de colocar o biquíni, e de desfilar com aquele vestido curtíssimo, e de tirar toda a roupa a luz de velas...). No entanto, as ingratas insistem em aparecer nos momentos mais inconvenientes.

 

Devidamente vestida, sentei a espera do sermão. Ele não veio. Em seu lugar, a requisição de alguns exames. No alto da folha de exames, um campo “justificativa”. Não te assusta, disse o médico, ao mesmo tempo em que preenchia o tal campo com a palavra O B E S I D A D E. Foi exatamente assim que ele escreveu: com 8 letras maiúsculas, levemente separadas umas das outras, como que soletrando meu atestado de morbidez.

 

Em um primeiro momento, ri. Supus uma brincadeira. Calma lá, tudo bem que eu dei uma engordadinha, mas daí a estar obesa? Não precisa exagerar. Exageros fui eu que cometi – e a indecente palavra estava lá, em letras garrafais, para não deixar dúvida alguma sobre quem era o culpado.

 

No momento seguinte me senti absolutamente inadequada. Uma certa vergonha de colocar o nariz – e a barriga – para fora do prédio, com a nítida sensação de que todos me olhariam com ar de desaprovação. Antes de qualquer coisa, aquelas letras soaram para mim como o título de um crime.

 

Agora, o pior já passou. Me acostumo aos poucos a dieta que irá me acompanhar pelos próximos meses. Continuo andando pela rua. Se não tenho medo de ser presa na primeira esquina, também não posso dizer que me sinto confortável. Basta abrir uma revista feminina qualquer, ou ligar a televisão, ou entrar na internet para ter a certeza de que uns quilinhos a mais soam como uma aberração em um mundo que encara o ser magra como um dogma.

  

 



Escrito por Pri Guerra às 16h35
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